Como advogada, luto diariamente pelo reconhecimento dos direitos animais nos tribunais,
mas a verdadeira transformação começa nas nossas escolhas diárias. Se você convive com
um cão ou um gato, provavelmente já olhou nos olhos desse animal e reconheceu ali
emoções, vontades e uma personalidade única. Nós os protegemos, legislamos a favor de
seu bem-estar e nos indignamos com qualquer ato de crueldade contra eles.
No entanto, quando nos sentamos à mesa para as refeições, essa mesma empatia muitas
vezes desaparece. Como advogada atuante na causa animal, passo meus dias debatendo
a senciência no âmbito jurídico — a capacidade que os animais têm de sentir dor, medo,
alegria e afeto, deixando de ser tratados como meras “coisas” perante a lei. Mas as leis
sozinhas não mudam o mundo; elas apenas refletem o grau de consciência de uma
sociedade.
O maior desafio ético do nosso tempo não está apenas nos tribunais, mas nas prateleiras
dos supermercados. A pergunta que convido você a fazer hoje é: por que amamos uns e
consumimos outros? A resposta não está na biologia dos animais. Um porco é
cognitivamente tão inteligente e sensível quanto o cachorro que dorme no nosso sofá. A
diferença reside na forma como fomos condicionados a enxergá-los.
A indústria alimentícia criou uma barreira invisível — e altamente lucrativa — que
desconecta o pedaço de carne embalado no plástico do animal que um dia respirou, sentiu
e desejou viver. Despertar a consciência para não consumir animais não exige que você se
torne um ativista da noite para o dia. Exige apenas a coragem de olhar para o que foi
invisibilizado.
Aqui estão alguns passos práticos para iniciar essa reflexão:
● Quebre a desconexão: O primeiro passo é reconhecer quem está no prato, e não o
que está no prato. Questione as tradições. O fato de fazermos algo há muito tempo
não torna essa prática eticamente justa.
● Informe-se sobre a senciência: Busque documentários, livros e artigos que
mostram a realidade da pecuária intensiva e a inteligência dos animais de fazenda.
Quando compreendemos que bezerros brincam, vacas formam laços de amizade e
galinhas têm estruturas sociais complexas, o distanciamento emocional começa a
ruir.
● Exerça o consumo como ato político: Comece aos poucos. Iniciativas como a
“Segunda Sem Carne” são excelentes portas de entrada. Substituir a proteína
animal por opções vegetais, mesmo que algumas vezes na semana, já envia uma
mensagem clara ao mercado e poupa inúmeras vidas.
● Amplie seu círculo de compaixão: A mesma indignação que sentimos ao ver um
animal em situação de rua sofrendo abusos deve ser estendida aos animais
confinados na indústria. A dor não escolhe espécie.
A defesa dos animais não se limita a redigir projetos de lei ou atuar em audiências. Ela é
uma prática diária. Cada vez que escolhemos uma refeição livre de sofrimento animal,
estamos votando no tipo de mundo em que queremos viver.
O direito à vida e à integridade não deveria ser um privilégio exclusivo dos animais que
escolhemos como de estimação. A verdadeira justiça é inclusiva e, muitas vezes, o tribunal
mais poderoso que existe é a nossa própria consciência.
Giovana Demai Gonçalves
Advogada da Causa Animal (OAB/SC nº 59.790) e Colunista



